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Vacina de ano novo

Muitos me desejaram paz e amor em 75  (2015).

Mas havendo amor, haverá paz?

Amor é o contrario radioso dela. É inquietação, agitação, vontade de absorver o objeto amado, temor de perdê-lo, sentimento de não merecê-lo, ânsia de dominá-lo, masoquismo de ser dominado por ele, dor de não o haver conhecido antes, dor de não ocupar seu pensamento 24 horas por dia, e mais dias a pedir ao dia para ocupá-lo, brasa de imaginá-lo menos preso a mim do que eu a ele, desespero de o não guardar no bolso, junto ao coração, ou fisicamente dentro deste, como sangue a circular eternamente e eternamente o mesmo.

Amor é isso e mais alguma triste coisa.

E a tristeza incurável do tempo não passa fora de nós, passa é dentro e na pele marcada da gente, lembrando que eternidade é ilusão de minutos e o ato de amor deste momento já ficou mergulhado em ter sido.

Amor é paz?

Carlos Drummond de Andrade
Feliz 2017
Adeus 2016
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Perdido…

Se perder no caminho…

Talvez de proposito…

Talvez por vontade de trocar de presente

De futuro, de estação, de paisagem…

Ninguém pensa muito nisso, é uma pena.

Só uma pena.
Voando sempre de acordo com a mesma rajada de vento, a mesma latitude, o mesmo bando, a paixão cansa e a ânsia de voar junto se esvai.

Flutuando leve na altura dos olhos…

Ao alcance dos dedos…

Brota uma irrevogável sensação de encantamento, um envolvimento juvenil.

Porque parece sorte estar ali…onde não está…

“Dedica-te mais tempo. Não te percas de quem és. Não te afastes de quem queres ser. Não te iludas. Não te enganes. Arranja tempo para cuidar de ti. Vira por um momento as costas a tudo e todos e olha-te com olhos de gostar. Não te sintas mal por querer estar contigo. Não fujas de te sorrir. Esquece aquilo que te possam vir a dizer ou acusar, porque é apenas a opinião deles. Abraça-te. Não andes tão depressa. Pára mais vezes. Merece-te. Sente-te. Pára de te esqueceres de ti. Valoriza-te. Renova-te. Descobre a tua luz e, depois, ilumina-te de maneira a que possas enfim ver e perceber onde estás e se te agrada continuar a ir para onde estás a ir.” AD

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Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  “Fui  eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.
 Fernando Pessoa

Poema sempre me identificam, Pessoa, estranha a si mesmo ao revisitar seu passado, suas crenças, seus sentimentos.

Eu me estranho, por diversas vezes, ao pensar em atitudes, coisas que escrevi.As instabilidades da vida, do país, das coisas que cremos serem as certas, mas, não são certas para todos, uns querem mais, outros querem mais ainda, outros querem tudo, fazem com que ao olhar para estes fatos e vermos que querem que sejamos a paisagem deles e para eles.

Não. Jamais serei sua paisagem, sou minha própria paisagem, mesmo que me torne só. Que tenha que estar em constante desassossego. Meu sonho é o sonho de outro, porque me envolvo.e me multiplico em muitas almas e sempre me estranho, por ver que este sonho não era meu, mas eu me tornei noutro, por sonhar seus sonhos. E me estranho sempre.

Alguns só olham e por isto não se perturbam. Mas sentir transforma e faz com que sejamos sempre estranhos, por sentir demais.

Obrigada, Fernando Pessoa.

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Observar e absorver

 

A estrada

– Vai sentir a minha falta? – perguntou ela. – Nós já mal nos conhecemos.
– Eu posso mudar – respondeu ele.

Ela sorriu, e disse; – Sei que pode. E devia. Mas teria de fazer por tua vontade, não por pensar que é isso que eu quero.

Passou as semanas seguintes numa espécie de torpor e, um mês depois daquela conversa, após ter sido submetida a uma operação rotineira,ela morreu na sala de recuperação.
Este golpe terrível, vindo na sequência dos outros, o tinha trazido até ali..

Quando se sentiu pronto, entrou no carro e voltou para a estrada ..uma tempestade se formava ao largo da costa…desacelerou para apreciar a beleza serena daquelas terras baixas da faixa costeira, por aquelas bandas a vida era diferente, sentia-se encantado porque as pessoas que conduziam em sentido contrário o cumprimentavam com acenos, maravilhou-se com o grupo de idosos sentados no banco á beira da praia, que pareciam não ter mais nada que fazer do que observarem os automóveis que passavam..

O horror de saber que esta vida é verdadeira.(atual)

– Não é preciso marcar o tempo, basta abandoná-lo, ela me disse uma vez. De que adianta saber que dia é hoje? As horas sim, são importantes. O dia é bem dividido. Cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver de acontecer, é dentro dele.

– Os dias guardados. Armazenados. Neles, nenhuma marca. Rasura sequer. Conjunto, soma de todos os nossos instantes. Agora sei. Cada momento era uma antecedência para nós. Uma espera que se substituía infinitamente. Vivíamos na ansiedade pela ocasião que haveria de chegar.
Assim, nossa vida se distendia como um elástico. Esticava-se ao ponto máximo, atingindo o estado de tensão, incômoda inquietação. Quando o dia se acabava, a esperança nascia outra vez dentro de nós. Aguardávamos os instantes que faria o dia seguinte repleto-vazio.
Instantes despidos daquilo que faltava. Algo que necessitávamos e não íamos procurar. Ficávamos na expectativa que acontecesse. Havia uma falta. Não somente dentro do tempo. Porém um vazio concreto. Lancinante. Em cada canto da casa se projetava a sua sombra. Compacta.
Fomos preenchendo o apartamento com objetos. Até que se assemelhou a um bazar de artigos únicos, invendáveis. Cristaleiras cheias de compoteiras, xícaras, saleiros, copos, taças e licoreiras. Paredes com quadros, reproduções, flâmulas, santos, retratos, relógios parados.
E calendários. Dois ou três em cada cômodo, escolhidos por ela. Brindes ganhos nos Superpostos de Distribuição Alimentar. Comprados na igreja. Folhinhas que nos ensinavam vários costumes obsoletos. Como a boa época para se plantar e colher. Ou que davam o bom e o mau tempo.
(Loyola Brandão)
                                             18 10 2014 - 1

– Será que não era o barulho das cabecinhas estourando?

TRECHO: Á CAMINHO DO HOTEL

Entramos no carro e ele imediatamente iniciou a conversa, perguntou sobre o país, a cidade, politica, cultura; e eu lhe mostrei os diversos pontos culturais pelos quais passavamos no caminho, o museu, a feira hippie da Praça da Republica, ele quis parar e circular em volta das barracas, e gostou, seguimos para o carro e em seguida, não resisti e perguntei se já havia visitado outras mulheres que conhecera em ambiente virtual, ele me olhou e disse: – está receosa e cautelosa, o que me deixa tranquilo, porque vejo que é normal, está com receio, mas está disposta a se arriscar e me conhecer, acho que valho a pena o risco.Fui pretencioso?

Meio sem graça, com a franqueza dele, mas absurdamente encantada com a coragem de encarar o fato de que estaria conhecendo e convivendo com alguem e que estaria com medo dele, respondi que não, que era apenas curiosidade e que eu realmente queria conhece-lo, e que havia gostado especialmente do fato de podermos falarmos abertamente sobre nossos pensamentos, fora o fato de voce ser lindo, me envergonhei e pensei:- o que estou fazendo, dando em cima dele? Ele não é mais alguem distante, esta diante de mim, se veio até aqui, algo ele quer, mas pode ser só amizade, bom tomara que seja ao menos colorida….afffff.

Parecia que a cidade era apenas nossa,  apenas eu e ele entre os edificios desta mega cidade  sem saber ao certo até onde iriamos…o certo é que nos dirigiamos ao hotel…eu estava entre excitada e assustada…

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